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Mostrando postagens com o rótulo Conto de Luísa Nogueira

O Natal da Terra

Conto sobre os natais da Terra. Natais  que renascem todos os anos  O Natal da Terra Na ceia, não havia anjos nem velas douradas.  Apenas estrelas de carambola  e grãos de romã espalhados como promessas.   No centro do vermelho, uma flor branca. Era assim que a Mussaenda ensinava o Natal:  o essencial quase invisível, a esperança insistindo em florir  no calor do verão. Naquele dezembro, a cidade parecia cansada. As vitrines estavam prontas antes do tempo, os anúncios gritavam descontos, e o vermelho se espalhava como se fosse urgente convencer alguém de alguma coisa. Ainda assim, havia flores. Na esquina da rua antiga, uma Mussaenda-vermelha se derramava sobre o muro, exuberante, quase excessiva. Suas grandes pétalas rubras escondiam, no centro, uma flor branca pequena, delicada, quase invisível. Quem passava apressado via apenas o vermelho. Quem parava um pouco mais percebia o branco. Ela parou. Sempre gostara de flores que pareciam dizer algo sem le...

Um caderno, uma casa, uma fênix

Fim de ciclo, casa nova, um caderno e uma fênix. Às vezes, renascer é apenas continuar.  Um caderno, uma casa, uma fênix Ela atravessou a ponte da cidade nova com a mala na mão e o coração ainda dividido entre o passado e o que viria. O sol batia no parabrisa do carro como se limpasse o caminho. Havia silêncio no banco de trás: só um par de sandálias, um caderno de capa dura e a promessa de uma nova história. Não avisou ninguém. Apenas foi. A casa era pequena, branca, com janelas que deixavam o vento entrar sem cerimônia. No quarto, uma parede sem quadros. E, no centro dela, uma pintura antiga: uma fênix vermelha, em traços firmes, com as asas abertas em meio às cinzas. Ninguém soube explicar quem a desenhou. Estava ali havia anos, disseram. Nunca apagaram. Ela olhou para aquela figura por alguns segundos. Parecia algo ridículo. Ou mágico. Não sabia. Nos primeiros dias, organizou os livros, fez café forte, tentou dormir cedo. Não conseguiu. A cabeça fervia como o fogão aceso. ...

Conto ‘Cobra Coral’: tragédia familiar no sertão em tempos de seca

A literatura, muitas vezes, nasce da memória.  “Cobra-coral” é um conto breve, inspirado num  episódio real, sobre os riscos escondidos no cotidiano. “Cobra-coral" é uma história singela e dolorosa e o amor que une uma família em tempos difíceis.       Cobra-coral Conto sobre tragédia familiar e vida no sertão   Era uma manhã de agosto. O sol amanheceu ardendo em labaredas, no azul tímido do céu, parecendo tingido com grossos rabiscos de corante de urucum. Galhos secos se retorciam no desespero de mais um dia sem chuva. Dona Zefa, acalorada ao pé do fogão, fervia água pro café da manhã e esquentava umas migalhas do pão de anteontem, atenta às vozes vindas da sala. O choramingar da pequena Lara, de sete meses, era acalentado por Dara, de seis anos. Seu João mexia no rádio. Sintonizava aqui e ali, mas a notícia sobre as queimadas de ontem vinha entrecortada por ruídos. Damião, de nove anos, arrumava seu caderno e um livro com meia capa - o que Dona Zefa cons...