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O Natal da Terra



Conto sobre os natais da Terra. Natais que renascem todos os anos 

Placa verde escrita "Natais da Terra"


O Natal da Terra

Na ceia, não havia anjos nem velas douradas. Apenas estrelas de carambola e grãos de romã espalhados como promessas. 

No centro do vermelho, uma flor branca.

Era assim que a Mussaenda ensinava o Natal: o essencial quase invisível,

a esperança insistindo em florir no calor do verão.


Naquele dezembro, a cidade parecia cansada.

As vitrines estavam prontas antes do tempo, os anúncios gritavam descontos, e o vermelho se espalhava como se fosse urgente convencer alguém de alguma coisa. Ainda assim, havia flores.

Na esquina da rua antiga, uma Mussaenda-vermelha se derramava sobre o muro, exuberante, quase excessiva. Suas grandes pétalas rubras escondiam, no centro, uma flor branca pequena, delicada, quase invisível. Quem passava apressado via apenas o vermelho. Quem parava um pouco mais percebia o branco.

Ela parou.

Sempre gostara de flores que pareciam dizer algo sem levantar a voz. Tocou uma folha verde-clara, dessas que ainda não decidiram que tom terão quando crescerem. Pensou que o Natal talvez fosse isso: o que insiste em florir apesar da pressa.
Seguiu caminhando.

Em casa, a mesa ainda estava sendo preparada. Não havia louça fina nem decoração comprada. Sua filha fazia arranjos lindos apenas com frutas. Carambolas cortadas em fatias, formando estrelas improvisadas. Romãs abertas, espalhando grãos brilhantes como pequenas promessas. Alguém comentou, rindo, que guardaria três sementes na carteira. 

Superstição antiga, dessas que atravessam gerações sem pedir explicação.

Ela observou o gesto com carinho. Sabia que aquelas brincadeiras levadas a sério sustentavam mais esperança do que muitos discursos.

À tarde, enquanto o sol baixava, lembrou-se de um desenho que vira anos antes: um Papai Noel enorme, ocupando todo o espaço, maior que o presépio, maior que a própria ideia de Natal. 

Pensou em como o comércio aprendera a sorrir nessa época do ano. 

Pensou também que, apesar disso, as pessoas ainda se reuniam. Ainda sentavam à mesa. Ainda se olhavam nos olhos, mesmo que por poucas horas.

Talvez Deus escrevesse mesmo certo por linhas tortas.

No quintal, perto do muro, havia um canteiro tomado por flores que surgiam sem ordem. Maravilhas. Belas-noites. Beijos-de-frade. Nos últimos meses do ano, cresciam rápido, espalhadas. Como as confraternizações de dezembro: imperfeitas, barulhentas, necessárias.

Mais tarde, ligou a televisão. As imagens vinham de longe. Uma cidade-ilha, encostas ocupadas, chuvas fortes, água descendo sem encontrar caminho. Florianópolis. 

Lembrou-se da Flor-do-natal, aquela orquídea que florescia em dezembro e que agora era rara. Pensou na mão que destrói, na cidade que esquece, na natureza que cobra.

Desligou.

Havia um silêncio possível naquele instante.

Sentou-se à mesa. Um mais um mais um. Não dois. Três. O encontro que não cabe na soma exata. Corpo, mente, espírito. 

Filho, amor, paz. 

Um mais um mais um. Não o Natal das vitrines, mas o Natal do nascimento contínuo, esse que acontece quando alguém para, olha, partilha.

Do lado de fora, a Mussaenda continuava ali. Vermelha. Branca. Verde.

A Terra, cansada, ainda respirava.
E naquele Natal, sem espetáculo, sem perfeição, algo renasceu.

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#memória afetiva

#espiritualidade

#meio ambiente

#leitura reflexiva

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