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Via Vida: Pater


No início do século passado havia um casal em uma pequena cidade do interior maranhense. Eles tinham muitos filhos, como era normal naquela época. Um deles se destacava dos demais, desde molecote. 

O menino era de pensamento rápido, brincalhão, serelepe mesmo. Porém, gostava de estudar e passava horas escrevendo poesias e lendo todos os livros que lhe caíam nas mãos. Apesar desse diferencial em relação aos outros, era querido e amado por todos. 

Viviam dizendo que ele iria ser padre, pois era prestativo, gostava de ajudar seus amigos, sua família e as pessoas à sua volta. Cresceu ouvindo isto. Ser coroinha e seguir por essa trilha imaginada para ele, não seria surpresa para ninguém. 

Imaginada para ele, não por ele. O que ele admirava mesmo – e inconscientemente desejava - estava bem longe desse caminho, em um sentido totalmente oposto. 

Não se via fechado, isolado e fazendo sermões. Achava bonito uma família grande, com uma escadinha de filhos, exatamente como a sua. 

Achava ainda mais bonito quando saía e via cabecinhas de cabelos longos em delicados vestidos românticos. Aí, já viu, o moleque se derretia todo. Perdia a noção do tempo ao ver as meninas passando por ele. Quando conversava com alguma delas que lhe dava arrepios, passava noites e noites sonhando.

Dico era o apelido do garoto. Na verdade, ele iria fazer o seminário por falta de opção. Nas redondezas de sua cidade nada se comparava ao ensino ali dado e seus pais não podiam lhe pagar um colégio na capital. Ouvia que para ser padre era necessário estudar muito, além de teologia, ciências sociais, línguas, tinha até latim. Sim, os seminários antigos ensinavam latim a seus alunos seminaristas, por uma razão especial: as missas eram ditas em latim. Logo, os padres deveriam estudá-la.   

Como seria bom aprender uma língua raiz de muitas outras, o jovem pensava e ao mesmo tempo ficava intrigado sobre as missas serem em latim. Dizia: - As missas são tão bonitas, ficariam bem melhores se os padres pudessem falar sem se esconderem atrás de uma língua incompreendida por todos. 

Perguntas e questionamentos não tão relevantes quanto as saias usadas pelas meninas de seu tempo. Ah! As meninas! Elas que eram importantes e não saíam de sua cabeça. Teria que deixar de lado as serenatas que fazia com seus amigos? Ora, o que iria aprender no seminário valia a pena, achava.

Foi para o seminário e logo de cara gostou e até se entusiasmou com as matérias. Eram muitas mas isso não o assustava, gostava mesmo de estudar. Logo se viu como o primeiro aluno em latim. As missas eram ditas nessa língua morta, berço das línguas indo-europeias. Com uma boa dicção e falante como ele só, nos primeiros anos já era visto ajudando a dizer missas. As primeiras que ajudou a celebrar se sentiu no céu, voando como um anjinho. Sim, estava no lugar certo, deduzia já se vendo um padre, até que...

Até que as férias chegaram. Casa, amigos, festas... Aquela linda mocinha continuava flertando com ele. Uma saidinha não faria mal algum, só uma...

- Aproveite a vida enquanto pode Dico, diziam seus amigos.

- É verdade, tenho que namorar agora. Depois, como padre, acabou-se... E assim foi pensando, levando e ficando.

Um ano, dois anos, três anos entre seminário, casa, amigos, festas, meninas. "Que la vie est belle!", falava com uma pontinha de orgulho mostrando para as garotas que aprendera francês. 

Mas um período de descanso com sua família. As roupas de antes quase não lhe serviam mais.

- Como cresceu e ficou bonito, falava sua mãe.  
- Esse menino vai dar trabalho, retrucava uma tia. 

"O trabalho" era porque a porta de sua casa virava uma passarela de moçoilas olhando de rabo de olho as janelas da casa. Quando o viam desviavam o olhar, sorriam, com as mãos na boca, olhando umas para as outras.

Mais uma volta ao seminário. Quase terminando o primeiro semestre recebeu uma visita. Ficou tenso, pálido, amedrontado. Com as mãos entre a cabeça ficou zanzando de um lado para o outro. "Vou ser padre?", repetia meio tonto sem saber bem o que falava. 

A notícia    

Recebeu a notícia que seria padre, antes de se ordenar padre, logo depois de uma aula de latim, no seminário, claro. Os pensamentos de Dico ficaram como ponteiros desgovernados, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, numa confusão de dar dó. Destino cruel! Padre? Pater? E o latim se misturava em sua cabeça. Pater, pátre, patris, patre, patrem; patres, patres, patrum, patribus, patribus, patres...  Iria ser padre? Iria ser pater? Pater-padre? Pater-pai? Sim, sim, padre, pater, pai! Pai? Pa... pa... pai? Não, não. Já estou usando batina, dizendo missas. Como posso abandonar tudo justamente agora! Caso lá? Descaso aqui? Uma luz, uma luz! Caso ou descaso? Abandono lá ou abandono aqui?  Abandono aqui, abandono aqui, abandono aqui, repetia, repetia, repetia.

Não abandonou. Ficou se remoendo, com a consciência doendo, dizendo a si mesmo que se casaria logo que completasse, pelo menos, seu curso de línguas.

Não casou. Foi um bafafá só. Afinal, a palavra pai não era usada também para se referir a padres? Assim, Dico foi pai-pater antes de ser pai-padre.

Tempos depois Dico rasgou a batina e tirou da rotina o latim. Foi dizer missas em outras línguas para outros fiéis. No ouvido de devotas de Santo Antônio. Casou-se, ficou viúvo, mas não desistiu, casando-se novamente. Dico não nos legou apenas uma escadinha; deixou para a posteridade uma imensa e mágica escada rolante. Filhos, netos, bi, tri... Degraus que rolam e se enrolam... Enrolam e se desenrolam, multiplicando-se como num passe mágico a cada geração, pois Dico foi pater mais de duas dezenas de vezes.

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“Pater” é um conto de uma trilogia que escrevi há alguns anos, baseada em uma história real. Toda e qualquer semelhança a um ilustre familiar, não é mera coincidência.

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