Pular para o conteúdo principal

Via Vida: Passeio na Chuva

Passeio na Chuva






Sábado. Uma pequena cidade.

Choveu muito durante toda a noite, a chuva parando só lá pela metade da manhã. Apesar da chuva no ar, o tempo estava ótimo, um leve frio nos refrescava. Na verdade era mais um frescor da chuva do que frio. Dava até para ficar sem agasalho.

Com aquele tempo bom, sem o calor que sempre fazia por lá, fiquei com uma vontade grande de andar pela cidade. Chamei meus companheiros de viagem - familiares e amigos - mas todos estavam ocupados. Queriam aproveitar o passeio jogando cartas ou jogando conversa fora. Disse que ia dar uma volta. "Leve uma sombrinha", alguém me falou, "pode voltar a chover". "É, você pensa que não está mais chovendo? Está chuviscando, bem fininho", retrucou outro. Não desanimei. Peguei uma sombrinha, dessas que se dobra - made in china? - e saí...

----------------------------------Meu Passeio

Como a cidade está calma, pensei. Que paz! Fui andando e ouvi alguns pássaros protestando, ao perceberem minha presença, voando e trocando de galhos. Olhei para eles, discretamente, para não assustá-los ainda mais. Deve ter algum ninho com filhotes, refleti.

Continuei meu passeio. Mais uns cem metros e um gatinho malhado de banco e preto passa correndo, atravessa meu caminho e desaparece entre o mato de um lote vazio.

Ouvi alguém cantando baixinho, acompanhado por seu violão. Ensaiando? - perguntei a mim mesma.

Mais um gatinho, dessa vez todo preto. Atrás dele corria um branco de manchas cinzentas. Eram filhotes brincando. Pulavam um sobre o outro, dando mordidinhas. Mordidas de carinho, como tapinhas que irmãos se dão em brincadeiras...

Continuei. Notei que uma leve garoa caía. Quase imperceptível.

As casas simples mas bem cuidadas tinham jardins com flores, dessas florzinhas fáceis de pegar, como a vinca, também chamada de maria-sem-vergonha. Pobre flor-mulher, pobres Marias. Não podem aparecer que logo são 'recolocadas' em situações subalternas quando não constrangedoras. Sempre, mas sempre mesmo, quando vejo essa flor, eu me recordo de uma outra pequena cidade
onde passei parte de minha infância. Por todos os lugares onde se ia havia alguma maria-sem-vergonha. Sempre colorida e linda.

Continuando meu passeio cheio de recordações, uma casa mais na frente me chamou a atenção. Era um sobrado, pomposo e moderno. Ouvi vozes vindas de lá. Quando passava bem em sua frente, percebi que um casal discutia. A voz feminina parecia tímida, quase choramingando. A masculina era alta, mas dava para perceber que a pessoa devia estar embriagada ou de ressaca das baladas da sexta-feira. Andei mais rápido por alguns segundos. Queria continuar em meu mundinho de paz que o passeio criara...

Mais um gatinho. Depois da praça avistei algumas pessoas que tiveram a mesma ideia e coragem que tive: caminhar, sem medo de se molhar.

Agora foi a vez de um pequeno, quase minúsculo cachorrinho. Correu em minha direção, como para me fazer medo. Vendo que eu não reagia, se afastou, entrando no jardim de onde havia saído.

De uma casa humilde, a mais simples que vi nesse meu passeio, ouvi vozes. Cantavam, riam, pareciam bem alegres, contentes.

Foi inevitável esse pensamento: De uma casa, aparentemente habitada por pessoas bem sucedidas, financeiramente falando, vem brigas, discussões, infelicidade. De uma outra, que mostra ser de pessoas simples, sem muitos bens materiais, saem cantos, risos, alegria... Realmente, a felicidade está dentro de cada pessoa. Não mora em casas, sejam elas modestas ou suntuosas. Mora dentro de quem as habita, fazendo de cada casa um palácio ou um casebre, independente de ser rica ou pobre.

Sim, é aí que mora a felicidade, aí, bem dentro de cada um de nós. Aí, bem dentro de você. Simples assim... É só saber encontrá-la. Problemas? Todos nós temos. Seja de ordem financeira, de saúde, com filhos... Não podemos correr deles, mas podemos deixá-los de lado, por alguns momentos, vivenciando pedacinhos de nosso dia a dia com força, coragem e alegria. Seguindo e vivendo a vida, sem deixá-la passar adiante de nós. Podemos vez ou outra sair na chuva e caminhar, deixando o tempo bom penetrar em nossa alma e nos fazendo mais felizes. Podemos nos alegrar com o canto de um pássaro, com a alegre brincadeira de um animalzinho ou com a beleza de uma flor. Podemos, sim, ter momentos de felicidade, mesmo nadando em problemas.

Apressei meus passos. Já dava para sentir o chuvisco fininho da chuva que voltava.



------------------------

Escrevi "Passeio na Chuva" sábado passado, depois de 'meu passeio na chuva'. Realidade e ficção. Crônica? Ou um miniconto? 

-------------------------

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog na última semana:

Via Verde: Pequena, Vermelha e Adocicada: Que fruta é essa?

Galhos com frutos maduros e amadurecendo. Há alguns anos compramos uma muda de uma planta que diziam ser jambo. A plantinha foi crescendo e cada vez ficando mais diferente de um jambeiro. Quando começou a frutificar vimos que era uma fruta que não conhecíamos. O pior é que ninguém da vizinhança conhecia. É pequena, tem mais ou menos um quarto do tamanho de um jambo, vermelha e adocicada, quando madura. Você sabe que frutinha é essa? Árvore com tronco e galhos finos. Formato das folhas e frutinhas amadurecendo. Que fruta é essa?  Retiramos a pele de uma delas para mostrar a polpa. A pele é bem fininha... Cada uma das frutinhas possui duas sementes, parecendo uma semente dividida. Duas frutinhas ao lado de um jambo. Essa  foto foi feita ontem, domingo, após a colheita. ----------------------------

Via Verde: As Três Cores do Flamboyant, a Musa das Árvores

Flamboyant vermelho - Apesar desse flamboyant ser uma árvore nova, sua copa dá uma grande e gostosa sombra.  Minha filha, durante uma caminhada, passando sob o flamboyant. Beleza da copa florida Folhas, botões e flores do flamboyant  Flamboyant enfeitando o jardim do Tribunal de Justiça, em Brasília.  Flamboyant, espelho d'água e fachada do TJ.  Flores e galhos retorcidos do flamboyant. Flores do flamboyant - Veja, logo abaixo, esta foto em uma tomada mais próxima. Sempre quis clicar as flores de um flamboyant bem de perto. Não são belas? Flamboyant alaranjado - Três ou quatro árvores dando as boas vindas na entrada de uma lanchonete, na rodovia que liga Goiânia a Brasília ( Lanchonete Jerivá ). Flamboyants do Jerivá Flamboyant amarelo - Este está em Brasília, logo depois da Ponte das Garças - conhecida como 'a ponte do (Conjunto Comercial) Gilberto Salomão', no sentid...

Via Verde: Limão Imperial

Como aquela frutinha chamada Noni* que encontramos em Goiânia, o limão imperial , para mim, também é uma novidade. Vi essa muda das fotos em um viveiro de Brasília. Só souberam me informar sobre seu nome. Nada encontrei também nas pesquisas que fiz via Google. O fruto parece uma pequena laranja, porém rajado, como suas folhas. Havia algumas pequenas flores, mas elas não estão bem visíveis nessas imagens. As fotos foram feitas em um horário inapropriado para fotografia. Infelizmente não pude retornar em uma hora melhor para tentar mais alguns cliques. Alguém conhece? Família  Citrus sinensis ? Limão imperial? Limão imperial -------------- *Noni - Veja a post Noni neste mesmo blog. --------------- Obrigada, amigos. De acordo com a estatística do Blogger estamos com mais de 400 mil visualizações de páginas. Neste exato momento (18:38 h) está marcando 401.156 visualizações. Estamos felizes! Queremos dividir essa alegria com todos vocês que por aqui passam....

Via Verde: Jurubeba, a Delícia Amarga do Cerrado

Jurubebas colhidas, em ramos saindo de um galho e folhas. Jurubeba: Folhas e frutos. Jurubeba: Galhos espinhosos. Jurubeba, jurupeba, gerobeba, joá-manso e outros nomes populares. ( Solanum paniculatum L .). Família das solanáceas. Que me lembre, comi jurubeba uma única vez, na chácara de uma amiga, perto de Hidrolândia, interior de

Via Verde: Acerola

Acerola Imaginem uma frutífera de porte médio, com mais ou menos três metros de altura, toda verdinha. Como surgindo do nada começam a aparecer pequenos botões rosa que se abrem em flores. Flores lilases, com o centro amarelo. Em alguns dias você tem uma pequena árvore toda colorida. Estou falando de uma 'fábrica' de vitamina C chamada aceroleira. Logo as flores se transformam em mini frutos verdes. Aí você tem de um verde claro - dos frutos, até um verde médio escuro - das folhas, ou seja, tom sobre tom, todo pontilhado de rosa, lilás e amarelo. Os frutinhos crescem, passando do verde ao rosa e depois se pintam de vermelho. Quando maduros ficam com um chamativo vermelho vivo, dançando ao vento e se mostrando. E você, sorridente, começa a colhê-los e a saboreá-los. Que delícia! ------------- Acerola, aceroleira. É também chamada de cereja das Antilhas. Nativa da América Central, América do Sul e das ilhas do Caribe. Além de um grande teor em...

Via Verde: Festas Juninas com Flor-de-são-joão

Flor-de-são-joão É em junho que ela ama aparecer. Deve gostar do forró das festas juninas. Tanto fez que acabou ganhando este nome: Flor-de-são-joão. Olha só que linda ela é, toda espevitada e colorida, pronta para dançar e rodopiar nas festas de São João. ....   Flor-de-são-joão, cipó-de-são-joão ( Pyrostegia venusta ). Família das bignoniáceas. É originária da América do Sul, Brasil e Paraguai. É uma planta trepadeira que pode atingir até 10 metros. Boa para revestimento de cercas, gosta de 'subir' em árvores e é vista também em beiras de estradas e barrancos. Floresce no inverno. .... Boas Festas Juninas! ... ... ------------------------

Via Natureza: Série Cerrado - III: Angico - Tronco e Galhos

Angico - Tronco e Galhos Nosso pé de angico veio ainda semente. Sementinha escondida na terra de uma muda de jabuticaba. Muda já grande que, de acordo com o casal que nos vendeu, já estava frutificando. Eles vendiam mudas vindas das redondezas de Goiânia. Isso há mais ou menos seis anos. Algumas semanas depois de termos plantado a jabuticabeira, com bastante cuidado, regando-a abundantemente, um fiapinho comprido de uma planta nasceu. Intrigada com aquela plantinha magricela, deixamos que ela ficasse. Queríamos saber o que era. No retorno do casal, mostramos a 'compridinha' - que nessas alturas já estava do tamanho da jabuticabeira. Foi aí que soubemos que tínhamos um pé de angico. Eles nos disseram que de onde tinham plantado as mudas havia muito angiqueiro. Alguma sementinha viajou junto. Pensamos mudá-lo para outro lugar. Mas ele foi ficando. Quanto mais crescia, mais difícil seria deslocá-lo. Hoje ele continua lá, coladinho ao pé de jabuticaba, fazendo sombra para ...

Via Natureza: Onde estão as chuvas de agosto?

Cajueiro florindo em agosto Não só de seca vive agosto. Apesar da falta de chuva, as árvores começam a brotar, florir e frutificar. No tempo de minha mãe jovem, segundo ela sempre dizia, as primeiras chuvas caíam no início de agosto. "Era para segurar as flores do cajueiro", dizia. Agora, o mês termina, entra setembro e muitas vezes as chuvas não aparecem. São bem visíveis as mudanças climáticas. Só não vê quem não quer. O que podemos fazer? Simples: apenas cuidar um pouco mais do ambiente em que vivemos. Como? .... 1- Plante ou adote uma árvore. Quantas árvores você já plantou? Não pode ou não quer plantar? Adote uma. Cuide de alguma árvore de sua rua, de seu bairro, de sua cidade... Sempre há alguma 'abandonada' por aí, às vezes entre calçadas apertadas, pertinho de você. ..... 2- Seja um fiscal do meio ambiente. Neste mês as queimadas acontecem com muita frequência. Não deixe aquela pequena chama evoluir. Seja o primeiro a avisar os bombeiros, ...

Via Verde: Sombrinha-chinesa

Sombrinha-chinesa O layout abaixo era de nosso Multivias do Go. Ele foi desenvolvido quando criamos o blog naquele site extinto. Queria algo que representasse caminhos, vários caminhos a andar. Olhando nosso arquivo de imagens, vimos fotos que havíamos tirado alguns dias antes. Era de uma palmeirinha chamada Sombrinha-chinesa. Cortamos e trabalhamos algumas dessas fotos, unificando e modificando a cor e o brilho. O resultado final foi esse: A foto original Outras fotos da palmeirinha: .... Sombrinha-chinesa, palmeira-umbela (Cyperus alternifolius). Família das ciperáceas. É originária da África, Madagascar. Possui folhas de um verde intenso, escuro e brilhante. Na primavera se enche de minúsculas flores, que saem de seu centro em longas hastes. ----------- ... Alguns caminhos nos levam para flores, outros para espinhos e muitos a lugares desconhecidos. Que seus novos caminhos, amigo/amiga, se abram para muitas flores! ... -------------------...

A cidade dorme, a ambição descansa (1 de 2)

  Noite, luzes dos prédios apagadas e a lua.  Na foto maior, linhas das luzes de  uma rua, em plena madrugada. A cidade dorme, a ambição descansa (1 de 2) A cidade dorme, mas a ganância não Hoje, às cinco da manhã, a cidade parecia em paz. Fotografei os prédios ao redor: janelas apagadas, nenhum sinal de movimento. Um silêncio quase confortável, como se tudo estivesse, finalmente, em repouso. Mas não estava. Trecho do texto de 2008 Essa cena me levou de volta a outra madrugada, em Brasília. Ruas vazias, iluminadas artificialmente, dando a impressão de vida que não existia naquele momento. E, como um eco distante, lembrei de um verso antigo: “A cidade dorme / a ambição descansa.” Queria acreditar nisso. Mas não consigo mais. A ambição não descansa, ela apenas se torna invisível. Enquanto dormimos, florestas continuam sendo derrubadas. Rios seguem recebendo o que não deveriam. O mar engole o excesso que produzimos sem medir as consequências. Nada disso pausa porque a cidad...