Pular para o conteúdo principal

Via Verde: Dracena Fragrans, A Bela da Tarde


Quando no título cito A Bela da Tarde, não quero falar sobre a bela do  filme estrelado por Catherine Deneuve. Também não falo da moça de domingo, que no "azul viajava", da canção de Alceu Valença. Não, não é La Belle de Jour; nem a bela infeliz do filme, entediada em seu casamento, nem a moça da tarde "de um domingo azul", "a moça mais linda de toda a cidade". 

Falo de minhas dracenas. 

A planta dracena não se arruma para sair à tarde, igual a personagem do filme, nem para passear na praia de Boa Viagem, feito a moça bonita de Valença, de "olhos azuis como a tarde". 

Minhas dracenas se enfeitam para ficarem. Ficam e dão um show de charme e originalidade. 

De minha janela assisto o espetáculo que se estende ao longo do dia. Pela manhã são simples cachos marrons, parecendo espinhosos, iguais aos dos pés de urucum*. Por volta do meio dia resolvem se enfeitar, lentamente, como não querendo mostrar de uma só vez toda sua beleza delicada. Seus cachos imitam cabelos cacheados e de marrons ficam, pouco a pouco, pintados de branco até a cor marrom quase desaparecer, escondida atrás de um manto de flores brancas. 

Minhas dracenas, parecidas com as belas do filme e da canção, são também vaidosas. Usam brincos. Brincos de ouro. Das pétalas-filamentos das flores brancas pendem discretos brincos de longe quase invisíveis. Brincos amarelos sol e ouro. 

São centenas de flores, pequenas e fragrantes, daí seu nome dracena fragrans

A explosão em flores continua até o anoitecer. À medida que o dia nasce, elas novamente se fecham. Seu perfume lembra o da flor dama-da-noite, porém mais suave. 

Confira as fotos que fiz no decorrer do dia. 

Pela manhã


Ao meio dia elas aumentam de tamanho, explodindo em flores no final da tarde...



Minhas dracenas me encantam tanto que inspiram versos. No embalo da canção e do filme, compare as fotos com os trechos de um poema que fiz enquanto admirava as belas de meu jardim: 

Dracena fragrans 


Simples e charmosas 

De jardins convidadas 

Folhas delgadas

Verde intenso, alongadas


Flores raras preciosas  

Nas manhãs, dengosas 

Tímidas 

Em cachos marrons escondidas 

Pompons de aconchego

E sossego


Nas manhãs, flores dormentes

Descanso de noites vagantes? 

(…)

Se me cacho em fechados cachos 

Em flutuantes balanços perfume lanço 


Sou da tarde bela visitante 

Da noite estrela fragrante


(Trechos do poema Dracena Fragrans, de Luísa Nogueira)



Cachos e mais cachos com pequenas flores brancas, no meio do verde intenso das folhas finas e alongadas. Atenção para os detalhes cor ouro nas pontinhas das flores. 


As flores brancas saindo aos montes de seus 'casulos' marrons




Dracena, dracena fragrans, coqueiro-de-vênus, pau d'água (Dracaena fragans). Família das liliáceas. O nome 'pau d'água' é devido à facilidade de seu tronco em brotar, mesmo cortado em pequenos pedaços. Coloca-se pedaços do tronco dentro de alguma vasilha com água** e logo estarão prontos para o plantio. É uma planta que atinge de 5 a 6 metros de altura, muito decorativa. É de fácil cultivo, não necessitando muitos cuidados. Há dracenas bicolores: suas folhas são amarelas no centro e verdes nas bordas. As minhas são somente verdes.

---------

Sobre o filme "Belle de Jour": Filme rodado na França em 1966, realizado por Luis Buñuel, cineasta espanhol naturalizado mexicano. Luis Buñuel: 1900 (Catalanda, Espanha) - 1983 (Cidade do México).

Trailer do filme La Belle de Jour: https://www.youtube.com/watch?v=gC1lO7lqMuw

---------

Canção La Belle de Jour, de Alceu Valença: https://youtu.be/l-FxY25lYzY

Sobre Alceu Valença: Um dos maiores compositores brasileiros, nasceu em Pernanbuco, em 1946. É também cantor, instrumentista e advogado. 
Composições: Morena tropicana, Tu vens, Anunciação, Girassol , entre muitas outras belas canções.

---------

* Urucum. Você conhece? Veja fotos das flores de urucum: https://www.luisanogueiraautora.com.br/2008/10/viaverde-16-flores-do-urucum.html

Colheita de urucum feitas em meu quintal (não economizei nas fotos rsrs. Mostro o pé de urucum, os cachos com as sementes, folhas, tudo: https://www.luisanogueiraautora.com.br/2008/10/viaverde-17-nosso-colorau-o-urucum.html

São quatro postagens com Urucum, entre elas uma com receitas e o modo de se fazer o óleo com urucum. Confira através do marcador urucum.


**Troque sempre a água para evitar o mosquito da dengue.

---------------------------

Comentários

Estela disse…
Olá Luisa,
por aqui temos muitas nas calçadas. À noitinha sentimos o seu perfume... um perfume delicioso.
Não sabia o seu nome. Valeu!
BJs.
Coisa linda estas fotos, quase que senti o aroma gostoso que estas delicadas flores tem.
meus cumprimentos, eu amo flores, alias estava ao meio delas por 60 dias em New York, onde pude apreciar o manto rosa das cerejeiras, um esplendor de se ver e sentir.
Efigenia Coutinho
gorettiguerreira disse…
As flores sempre tão lindas e simles assim.
Lindas.
Bjs Goretti
Unknown disse…
Ola eu tenho esta dracena em casa a muitos anos agora ela floriu...eu nao sabia fiquei encantada. co que idade ela flore??qdo devo poda la??sao flores maravilhoasas
nanapronta disse…
É a primeira vez em 5 anos que a minha Dracena dará flores, estou encantada! De quanto em quanto tempo ela dá essas flores, vc sabe?
Amanda disse…
Que interessante, Lu! Serve p/ cultivar em apartamentos? ;***

Postagens mais visitadas deste blog nos últimos 30 dias

Nascentes, a última voz das Águas

Uma crônica sobre o Rio Piracanjuba, suas nascentes e sua espécie que pede socorro  Nascentes, a   última voz das Águas Muitas delas, como as do Rio Piracanjuba, foram destruídas pelo avanço urbano e pelo desmatamento. Em setembro de 2010, escrevi no Blog Multivias que “milhares e milhares de nascentes de nossos rios pedem socorro”. Algumas, dizia eu, encontram fadas-madrinhas, como Helena Bernardes, que então lutava pelas nascentes do Rio Piracanjuba com uma coragem que parecia maior do que a própria geografia do Cerrado. Quinze anos depois, percebo que, se naquela época as águas sussurravam, hoje elas gritam. Onde nasce o Piracanjuba O Rio Piracanjuba brota na Serra do Alicrim, entre Silvânia e Bela Vista de Goiás, solo sagrado do Cerrado, onde as raízes profundas armazenam água por baixo da terra como quem guarda histórias. Suas primeiras fontes descem discretas pelas encostas e seguem viagem rumo a cidades que carregam seu nome: Bela Vista, Piracanjuba, Morrinhos,...

Via Verde: Pequena, Vermelha e Adocicada: Que fruta é essa?

Galhos com frutos maduros e amadurecendo. Há alguns anos compramos uma muda de uma planta que diziam ser jambo. A plantinha foi crescendo e cada vez ficando mais diferente de um jambeiro. Quando começou a frutificar vimos que era uma fruta que não conhecíamos. O pior é que ninguém da vizinhança conhecia. É pequena, tem mais ou menos um quarto do tamanho de um jambo, vermelha e adocicada, quando madura. Você sabe que frutinha é essa? Árvore com tronco e galhos finos. Formato das folhas e frutinhas amadurecendo. Que fruta é essa?  Retiramos a pele de uma delas para mostrar a polpa. A pele é bem fininha... Cada uma das frutinhas possui duas sementes, parecendo uma semente dividida. Duas frutinhas ao lado de um jambo. Essa  foto foi feita ontem, domingo, após a colheita. ----------------------------

Via Verde: As Três Cores do Flamboyant, a Musa das Árvores

Flamboyant vermelho - Apesar desse flamboyant ser uma árvore nova, sua copa dá uma grande e gostosa sombra.  Minha filha, durante uma caminhada, passando sob o flamboyant. Beleza da copa florida Folhas, botões e flores do flamboyant  Flamboyant enfeitando o jardim do Tribunal de Justiça, em Brasília.  Flamboyant, espelho d'água e fachada do TJ.  Flores e galhos retorcidos do flamboyant. Flores do flamboyant - Veja, logo abaixo, esta foto em uma tomada mais próxima. Sempre quis clicar as flores de um flamboyant bem de perto. Não são belas? Flamboyant alaranjado - Três ou quatro árvores dando as boas vindas na entrada de uma lanchonete, na rodovia que liga Goiânia a Brasília ( Lanchonete Jerivá ). Flamboyants do Jerivá Flamboyant amarelo - Este está em Brasília, logo depois da Ponte das Garças - conhecida como 'a ponte do (Conjunto Comercial) Gilberto Salomão', no sentid...

Via Verde: Jurubeba, a Delícia Amarga do Cerrado

Jurubebas colhidas, em ramos saindo de um galho e folhas. Jurubeba: Folhas e frutos. Jurubeba: Galhos espinhosos. Jurubeba, jurupeba, gerobeba, joá-manso e outros nomes populares. ( Solanum paniculatum L .). Família das solanáceas. Que me lembre, comi jurubeba uma única vez, na chácara de uma amiga, perto de Hidrolândia, interior de

Via Verde: Folhagens no Outono Brasileiro

Folhagens Caládio Nomes populares: Caládio e tinhorão, entre outros; nome científico:   Caladium bicolor .  Família  das aráceas. Costela-de-adão Nomes populares: Costela-de-adão, monstera, banana-de-mato,  abacaxi-do-reino,  ceriman;  nome científico: Monstera deliciosa . Família das aráceas. A flora nativa do Brasil é rica e diversificada. São plantas com flores e folhagens de cores que passam por todos os tons do arco-íris e de  formas e tamanhos os mais diversos. Em relação às folhagens, há com folhas gigantes, grandes, médias, pequenas e minúsculas. Essas destas fotos são algumas que consegui, aqui e ali, fotografar. Tenho mais fotos. Logo que consiga  identificá-las, deixarei por aqui. ... Cróton Cróton - É um arbusto que pode atingir de 2 a 3 metros de altura. Nome científico: Codiaeum variegatum . Família das euforbiáceas. Dracena (Veja mais sobre dracenas, neste blog, no post 'Dracena fragans, a Bela da T...

Um desencontro

Uma viagem curta, um desencontro na rodoviária, e o medo de perder quem amamos.   Um desencontro Foi nos anos 90. Minha mãe viajava quase sempre acompanhada, mas dessa vez viajaria só, sem a companhia da netinha de Goiânia, que já tinha vindo outras vezes passar parte de dezembro conosco. Tínhamos combinado com minha irmã: ela a embarcaria no ônibus, e nós a pegaríamos. Era uma viagem curtinha, apenas duas horas na estrada. De Goiânia a Brasília há duas opções: via Taguatinga ou direto, sem paradas. Há saídas de hora em hora. Claro, o direto é mais rápido, meia hora a menos. Ela sairia às quatro da tarde, e nós a pegaríamos às seis. Tudo combinado, tudo certinho. Cinco e meia, nós já estávamos na plataforma de chegada dos ônibus vindos de Goiânia. Minha filha segurava uma rosa nas mãos, esperando a vozinha que passaria dezembro conosco. Eu já de férias, minha filha também. Vozinha com oitenta e dois anos, viajando no horário escolhido por ela: — É mais fresquinho, argumentou, e nos...

Um caderno, uma casa, uma fênix

Fim de ciclo, casa nova, um caderno e uma fênix. Às vezes, renascer é apenas continuar.  Um caderno, uma casa, uma fênix Ela atravessou a ponte da cidade nova com a mala na mão e o coração ainda dividido entre o passado e o que viria. O sol batia no parabrisa do carro como se limpasse o caminho. Havia silêncio no banco de trás: só um par de sandálias, um caderno de capa dura e a promessa de uma nova história. Não avisou ninguém. Apenas foi. A casa era pequena, branca, com janelas que deixavam o vento entrar sem cerimônia. No quarto, uma parede sem quadros. E, no centro dela, uma pintura antiga: uma fênix vermelha, em traços firmes, com as asas abertas em meio às cinzas. Ninguém soube explicar quem a desenhou. Estava ali havia anos, disseram. Nunca apagaram. Ela olhou para aquela figura por alguns segundos. Parecia algo ridículo. Ou mágico. Não sabia. Nos primeiros dias, organizou os livros, fez café forte, tentou dormir cedo. Não conseguiu. A cabeça fervia como o fogão aceso. ...

Via Verde: Limão Imperial

Como aquela frutinha chamada Noni* que encontramos em Goiânia, o limão imperial , para mim, também é uma novidade. Vi essa muda das fotos em um viveiro de Brasília. Só souberam me informar sobre seu nome. Nada encontrei também nas pesquisas que fiz via Google. O fruto parece uma pequena laranja, porém rajado, como suas folhas. Havia algumas pequenas flores, mas elas não estão bem visíveis nessas imagens. As fotos foram feitas em um horário inapropriado para fotografia. Infelizmente não pude retornar em uma hora melhor para tentar mais alguns cliques. Alguém conhece? Família  Citrus sinensis ? Limão imperial? Limão imperial -------------- *Noni - Veja a post Noni neste mesmo blog. --------------- Obrigada, amigos. De acordo com a estatística do Blogger estamos com mais de 400 mil visualizações de páginas. Neste exato momento (18:38 h) está marcando 401.156 visualizações. Estamos felizes! Queremos dividir essa alegria com todos vocês que por aqui passam....

O Natal da Terra

Conto sobre os natais da Terra. Natais  que renascem todos os anos  O Natal da Terra Na ceia, não havia anjos nem velas douradas.  Apenas estrelas de carambola  e grãos de romã espalhados como promessas.   No centro do vermelho, uma flor branca. Era assim que a Mussaenda ensinava o Natal:  o essencial quase invisível, a esperança insistindo em florir  no calor do verão. Naquele dezembro, a cidade parecia cansada. As vitrines estavam prontas antes do tempo, os anúncios gritavam descontos, e o vermelho se espalhava como se fosse urgente convencer alguém de alguma coisa. Ainda assim, havia flores. Na esquina da rua antiga, uma Mussaenda-vermelha se derramava sobre o muro, exuberante, quase excessiva. Suas grandes pétalas rubras escondiam, no centro, uma flor branca pequena, delicada, quase invisível. Quem passava apressado via apenas o vermelho. Quem parava um pouco mais percebia o branco. Ela parou. Sempre gostara de flores que pareciam dizer algo sem le...

Voces de la Tierra - Especial COP30

                        🌍  Lee en: 🇧🇷   Português –Vozes da Terra - Especial COP30 🇬🇧   English –  Voices of the Earth – COP30 Special Voces de la Tierra - Blog Multivias - Especial COP30 Especial del Blog Multivias para la COP30: manifiesto y crónicas sobre medio ambiente, cultura y vida cotidiana. Voces de la Tierra por el planeta. Por una cultura de convivencia con el planeta   Introducción al dossier “Voces de la Tierra”   En 2025, Brasil será sede de la 30ª Conferencia de las Naciones Unidas sobre el Cambio Climático, la COP30. Celebrada en la Amazonía, esta edición representa un hito simbólico y práctico: por primera vez, la selva que sostiene el equilibrio del planeta se convierte en el centro del debate climático mundial. Pero la conversación sobre el futuro no comienza en las cumbres internacionales. Comienza en los patios, en las calles, en los biomas que dan forma al país y sostiene...