Pular para o conteúdo principal

Mulheres, Biomas e o Tempo que Acabou de Acabar

Mulher segura em uma mão um com microfone.
Veja a nota sobre a ilustração 

Mulheres, Biomas e o Tempo que Acabou de Acabar

Mulheres e Biomas. Um encontro entre a urgência climática e quem sustenta a vida nos territórios.

A crônica relaciona os novos debates da COP30 (integridade da informação, mulheres e biomas) com a negligência global no cumprimento dos ODS desde a COP de Paris. Um alerta sobre a urgência climática e a responsabilidade compartilhada na preservação da vida na Terra.


Há momentos na história em que a vida inteira parece caber em uma única pergunta: o que estamos dispostos a preservar?

A COP30 tem sido esse lugar: um espelho, um aviso, uma última chamada.

Depois da Declaração sobre a Integridade da Informação, lançada pela primeira vez em uma COP, ontem outro tema inédito veio à tona: mulheres e biomas. Uma síntese poderosa do que sustenta o mundo e do que o mundo insiste em ignorar.

Enquanto as enviadas especiais percorriam os cinco biomas brasileiros para ouvir mulheres que reinventam o futuro com as mãos, o planeta seguia sua marcha acelerada rumo ao limite climático. E não podemos esquecer: isso não começou hoje.

A COP de Paris, em 2015, nos entregou os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável - os ODS.

Uma promessa global. Uma chance real.

Mas governos, empresas e nações preferiram empurrar a urgência com a barriga, talvez acreditando que a Terra fosse infinita, que a vida fosse garantida, que as crises climáticas fossem ficção científica.

Não foram. Não são.

E aqui estamos: vendo fogo na terra úmida, seca na terra alagada, fome onde antes havia abundância, como disse Jurema Werneck*, ontem, na COP30. 

E mesmo assim, as mulheres seguem insistindo na vida.

Elas reconstruíram casas no Rio Grande do Sul quando as águas levaram tudo; elas vigiam fogos que devoram florestas; elas cuidam dos filhos, da roça, das outras mulheres do abrigo; elas escrevem futuro onde o Estado não chega; elas transformam escassez em inventividade; elas seguram o mundo, mesmo quando o mundo finge não ver.

E é impossível falar disso sem lembrar o que escrevi em 2021, quando o Brasil afundava na pandemia e na perda coletiva de rumo:

“Para existir, informar é preciso.
Para existir, enxergar é preciso.
Para existir, compreender o mundo como um todo é urgente.” (Blog Multivias, 2021)*

Hoje, mais do que nunca, é preciso repetir: não há futuro possível se os 17 ODS continuarem sendo ignorados como meras listas de intenções.

Eles falam de fome, de pobreza, de saúde, educação, igualdade de gênero, água limpa, energia sustentável, clima, vida terrestre e aquática.

Eles falam de tudo o que mantém o planeta respirando.

Eles falam de nós.

E, ainda assim, as metas seguem longe.

Marina Silva* lembrou ontem que as mulheres sabem compartilhar:

a teoria, a prática, o reconhecimento, a esperança.

Enquanto isso, muitos governantes ainda competem entre si para ver quem lidera o nada, quem disputa o vazio, quem segura o espelho do próprio ego.

Mas a Terra já não tem mais tempo para vaidades políticas.

O que está em jogo não é um acordo. Não são cifras. Não é reputação internacional. É a continuação da vida.

Simples assim. Cruel assim. Definitivo assim.

E por isso esta COP precisa ser o ponto de virada.

Não podemos mais permitir que gênero, clima, povos tradicionais, direitos humanos, água, biomas e sobrevivência sigam separados como se fossem assuntos diferentes.

A Terra é uma só.

E as mulheres dos biomas já entenderam.

Resta saber se o resto do mundo vai ouvir, finalmente, a sabedoria ancestral que vem da floresta, da água, do vento, da resistência.

E eu, Luísa, Luiza, Maria, mulher de cabelos já brancos e aprendiz permanente das esquinas da vida, sigo aqui insistindo: é preciso existir de mãos dadas.

Porque ser sustentável nunca foi sobre o planeta em si, mas sobre nossa capacidade de continuar vivendo nele.

E agora, sinceramente, o tempo acabou de acabar.

—-

Nota: Ilustração inspirada na arte da capa criada pelo artista plástico Sergio Ricciuto para o livro Balbúrdias na Quarentena, de Luísa Nogueira.

—-

Logotipo verde e redondo como a Terra, escrito: Multivias - Especial COP30

* Referências:

Sobre as falas da advogada e ambientalista Jurema Werneck e da ministra Marina Silva: Ver em COP30


Sobre os textos do Blog Multivias:


Leia também a crônica Quando a verdade vem da natureza 


Vozes da Terra – Especial COP30 


#JustiçaClimática
#Blog Multivias
#MeioAmbiente

Logotipo verde e redondo como a Terra, escrito: Vozes da Terra - Especial COP30

:::::::::::


Leia o Manifesto Vozes da Terra à COP30 no dossiê Vozes da Terra👇🏼

🌿 Série Vozes da Terra – Blog Multivias | #COP30


Crônicas da Série Especial COP30 - Blog Multivias:

1- O Último Pé de Pequi?

2- Macaúba, uma 🏝️ contra o aquecimento global

3- Quando o calor altera o futuro

4-O Balão Dirigível da Terra

5-Véspera da COP30: Um olhar do Cerrado

6-COP30: El Arcoíris de la Tierra

7-COP30: The Earth’s Rainbow

8-COP30: O Arco-íris da Terra

9-COP30: As mulheres e o trabalho invisível que sustenta o futuro

10-When Truth Comes from Nature

11-Cuando la Verdad Viene de la Naturaleza

12-Quando a Verdade Vem da Natureza

13-Mulheres, Biomas e o Tempo que Acabou de Acabar

14-COP30 en Belém: calor, bosques y la tierra que nos sostiene

15-COP30 (Parte 1): Calor, Florestas e a RAIZ do Problema

16-COP30 (Parte 2): O futuro começa com a verdade

17- Pós-COP30: Nascentes, a última voz das águas 



——-



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog nos últimos 30 dias

Via Verde: Pequena, Vermelha e Adocicada: Que fruta é essa?

Galhos com frutos maduros e amadurecendo. Há alguns anos compramos uma muda de uma planta que diziam ser jambo. A plantinha foi crescendo e cada vez ficando mais diferente de um jambeiro. Quando começou a frutificar vimos que era uma fruta que não conhecíamos. O pior é que ninguém da vizinhança conhecia. É pequena, tem mais ou menos um quarto do tamanho de um jambo, vermelha e adocicada, quando madura. Você sabe que frutinha é essa? Árvore com tronco e galhos finos. Formato das folhas e frutinhas amadurecendo. Que fruta é essa?  Retiramos a pele de uma delas para mostrar a polpa. A pele é bem fininha... Cada uma das frutinhas possui duas sementes, parecendo uma semente dividida. Duas frutinhas ao lado de um jambo. Essa  foto foi feita ontem, domingo, após a colheita. ----------------------------

Via Verde: As Três Cores do Flamboyant, a Musa das Árvores

Flamboyant vermelho - Apesar desse flamboyant ser uma árvore nova, sua copa dá uma grande e gostosa sombra.  Minha filha, durante uma caminhada, passando sob o flamboyant. Beleza da copa florida Folhas, botões e flores do flamboyant  Flamboyant enfeitando o jardim do Tribunal de Justiça, em Brasília.  Flamboyant, espelho d'água e fachada do TJ.  Flores e galhos retorcidos do flamboyant. Flores do flamboyant - Veja, logo abaixo, esta foto em uma tomada mais próxima. Sempre quis clicar as flores de um flamboyant bem de perto. Não são belas? Flamboyant alaranjado - Três ou quatro árvores dando as boas vindas na entrada de uma lanchonete, na rodovia que liga Goiânia a Brasília ( Lanchonete Jerivá ). Flamboyants do Jerivá Flamboyant amarelo - Este está em Brasília, logo depois da Ponte das Garças - conhecida como 'a ponte do (Conjunto Comercial) Gilberto Salomão', no sentid...

Via Verde: Jurubeba, a Delícia Amarga do Cerrado

Jurubebas colhidas, em ramos saindo de um galho e folhas. Jurubeba: Folhas e frutos. Jurubeba: Galhos espinhosos. Jurubeba, jurupeba, gerobeba, joá-manso e outros nomes populares. ( Solanum paniculatum L .). Família das solanáceas. Que me lembre, comi jurubeba uma única vez, na chácara de uma amiga, perto de Hidrolândia, interior de

Via Verde: Limão Imperial

Como aquela frutinha chamada Noni* que encontramos em Goiânia, o limão imperial , para mim, também é uma novidade. Vi essa muda das fotos em um viveiro de Brasília. Só souberam me informar sobre seu nome. Nada encontrei também nas pesquisas que fiz via Google. O fruto parece uma pequena laranja, porém rajado, como suas folhas. Havia algumas pequenas flores, mas elas não estão bem visíveis nessas imagens. As fotos foram feitas em um horário inapropriado para fotografia. Infelizmente não pude retornar em uma hora melhor para tentar mais alguns cliques. Alguém conhece? Família  Citrus sinensis ? Limão imperial? Limão imperial -------------- *Noni - Veja a post Noni neste mesmo blog. --------------- Obrigada, amigos. De acordo com a estatística do Blogger estamos com mais de 400 mil visualizações de páginas. Neste exato momento (18:38 h) está marcando 401.156 visualizações. Estamos felizes! Queremos dividir essa alegria com todos vocês que por aqui passam....

Via Verde: Folhagens no Outono Brasileiro

Folhagens Caládio Nomes populares: Caládio e tinhorão, entre outros; nome científico:   Caladium bicolor .  Família  das aráceas. Costela-de-adão Nomes populares: Costela-de-adão, monstera, banana-de-mato,  abacaxi-do-reino,  ceriman;  nome científico: Monstera deliciosa . Família das aráceas. A flora nativa do Brasil é rica e diversificada. São plantas com flores e folhagens de cores que passam por todos os tons do arco-íris e de  formas e tamanhos os mais diversos. Em relação às folhagens, há com folhas gigantes, grandes, médias, pequenas e minúsculas. Essas destas fotos são algumas que consegui, aqui e ali, fotografar. Tenho mais fotos. Logo que consiga  identificá-las, deixarei por aqui. ... Cróton Cróton - É um arbusto que pode atingir de 2 a 3 metros de altura. Nome científico: Codiaeum variegatum . Família das euforbiáceas. Dracena (Veja mais sobre dracenas, neste blog, no post 'Dracena fragans, a Bela da T...

Via Verde: Gomeira, Uma Árvore Nativa do Cerrado

Post por nós publicado em novembro de 2012 no blog coletivo Terra, aquele abraço . Queremos acompanhar uma gomeira por um ano apesar do tempo escasso. Mas, quando a vontade é maior, o tempo apertado pode esticar, espero.   Gomeira no início da floração - Foto feita em 02 de nov. deste ano Foto do dia 15 de nov./2012 Foto de 15 de nov./2012 Gomeiras - Fotos de 02 de novembro Gomeiras - Fotos de 25 de novembro A Gomeira, árvore nativa do Cerrado, é também conhecida como goma-arábica, árvore-de-goma-arábica, gomeiro-de-minas, pau-d'água, pau-de-vinho, casca-doce, entre outros nomes populares. É da família vochysiácea, tendo como nome científico  Vochysia elliptica (essa espécie das fotos). Há alguns anos vejo essa árvore de flores vistosas, mas nada sabia sobre ela. Dia 15 deste, clicando uma delas, conheci uma engenheira florestal,* que me informou seu nome. A partir daí minha pesquisa ficou bem mais fácil. Fiquei sabendo, por exemplo, que as ...

Via Verde: Margarida-das-pedras

Margarida-das-pedras ( Brachycome multifida ). Família das asteráceas (ou compostas). Mimosa margarida originária do país dos cangurus, Austrália (Oceania). Gosta de sol pleno e de clima tropical, por isto tão bem adaptada ao Brasil. Sua propagação é bem fácil: pode ser através de sementes, divisão de touceiras ou até mesmo pela divisão da própria planta. Suas folhas são permanentes e as flores aparecem durante quase o ano todo ou, em certas regiões, durante todo o ano. Têm entre 15 e 30 centímetros de altura.   Pesquisando sobre o país de origem desta planta, descobri um filme que, pela sinopse, fiquei com vontade de ver. O filme é Austrália , com Nicole Kidman. É realmente um bom filme? Um bom início de semana! -------------------------

Uma sombrinha, um bairro, um recomeço

Relendo o diário, reencontro a rotina das chuvas de janeiro: laboratório, passeio a pé, pequenas descobertas e uma pamonha que renova corpo e mente.   Uma sombrinha, um bairro, um recomeço O ano começa devagarinho  Mais um ano em Goiânia. Entre idas e vindas, completei um ano inteiro na minha antiga terrinha. (Logo depois da pandemia, em 2022, eu e minha filha também passamos um ano por aqui.) Goiânia em modo janeiro Relendo meu diário, notei que as chuvas de janeiro repetem a mesma música: começam leves, como quem pede licença e, de repente, tomam conta do dia e da gente. No início do ano passado, logo depois da nossa volta para Goiânia, num dia chuvoso como o de hoje, escrevi: Há dias em que a gente acorda sem disposição, sem força, como se o corpo tivesse virado um casaco pesado. Fico mais um pouco na cama, tentando negociar com o mundo. Mas o tempo não negocia. Ele vai. Vai.  Tic-tac, tic-tac , e pronto: quando percebo, a manhã já está alta. “Nove horas? Não acredito....

Caminhos que se desdobram

Quando criei o Multivias, em 2008, naquele primeiro convite silencioso, (V amos juntos caminhar?),  eu não sabia que estava abrindo um caminho que se desdobraria por tantos anos. Dezembro, um bom momento para avaliar nossas ações. Então, vamos falar sobre  Caminhos que se desdobram * Caminhar é uma das formas mais silenciosas de diálogo com o mundo. Foi assim que o Multivias** nasceu : do gesto de observar a natureza, registrar, refletir e partilhar. Cada imagem, cada texto, cada lembrança guarda em si o mesmo propósito: preservar o que ainda pulsa, o que resiste, o que floresce.   Sempre gostei de plantar, ainda que sem saber nomes científicos ou fórmulas de adubo. Aprendi apenas o suficiente para não deixar morrer as plantas que me cercam . T alvez isso diga muito sobre a forma como enxergo a vida. Cuidar é uma escolha. E escolhas diárias, mesmo as mais simples, podem ser gestos de resistência.   Quando criei o Multivias , em 2008*, pensei em abrir um espaço para f...

Como fazer óleo com urucum

  Óleo com urucum feito por mim - fiz com azeite de oliva Meu pé de urucum Há alguns anos ganhei uma muda de urucum. Ela cresceu, transformando-se em uma bela árvore. Eu não conhecia pés de urucum quando ganhei a mudinha. Não sabia bem como ela ficaria depois de crescida. Curiosa, comecei a ler sobre o urucum. À medida que crescia, crescia também minha admiração. Suas folhas eram diferentes de todas as outras plantas que tinha em meu quintal. Quando ela floriu, foi uma beleza assim, grande, que não dá nem pra explicar. Fiz muitas fotos. Aliás, não apenas das flores. Fotografei suas folhas, sementes, os cachos marrons, bacias e baldes cheios de seus frutos, e até meu marido subindo nela para colher os urucuns. Vou deixar abaixo os links dos posts.   Como saborear óleo com urucum Em outubro de 2008 postei neste blog uma receita de moqueca com urucum. Na mesma postagem deixei outras duas receitas, uma ensinando como fazer urucum em pó e na outra, os passos para deixar o óleo...