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Uma sombrinha, um bairro, um recomeço

Relendo o diário, reencontro a rotina das chuvas de janeiro: laboratório, passeio a pé, pequenas descobertas e uma pamonha que renova corpo e mente.

 

Uma sombrinha, um bairro, um recomeço

O ano começa devagarinho 


Mais um ano em Goiânia. Entre idas e vindas, completei um ano inteiro na minha antiga terrinha. (Logo depois da pandemia, em 2022, eu e minha filha também passamos um ano por aqui.)


Goiânia em modo janeiro

Relendo meu diário, notei que as chuvas de janeiro repetem a mesma música: começam leves, como quem pede licença e, de repente, tomam conta do dia e da gente. No início do ano passado, logo depois da nossa volta para Goiânia, num dia chuvoso como o de hoje, escrevi:


Há dias em que a gente acorda sem disposição, sem força, como se o corpo tivesse virado um casaco pesado. Fico mais um pouco na cama, tentando negociar com o mundo. Mas o tempo não negocia. Ele vai. Vai. Tic-tac, tic-tac, e pronto: quando percebo, a manhã já está alta.


“Nove horas? Não acredito. Levanta, mulher. Tem tanta coisa pra fazer.”

E logo me contradigo: “Preguiça? Eu, com preguiça?”

Porque o que fiz ontem desfila na sala da memória como se pedisse reconhecimento.


Naquele dia, pela manhã, uma brisa leve nos acompanhou até o laboratório. Eu ia fazer um hemograma - checkup atrasado, dois anos longe de consultórios, uma lista de exames que parecia maior do que eu. Na volta, e de um jeito quase infantil, resolvemos desbravar o bairro novo.


— Terça-feira fez um mês que a gente mudou, comentei. 

— Sim, minha filha respondeu. E apontou, animada:

— Olha! É um shopping. 

Eu, mais prática que animada:

— Talvez tenha uma lanchonete aberta. 

O lanche do laboratório e outras medidas de carinho

E aí entrou em cena um assunto curiosamente sério para duas pessoas de estômago vazio: o lanche dos laboratórios.


— Você viu? Eles deixaram duas máquinas para o cliente pagar o lanche depois do exame, eu disse, acentuando a ganância da empresa e, ao mesmo tempo, comparando com o laboratório de Brasília onde fazíamos nossos exames de rotina.


— Lá tem um lanchinho reforçado, ela lembrou.

— Pão de queijo, suco, banana, bolachas…

— E ainda dá pra escolher: cafezinho, cappuccino, café com leite, chocolate quente…

— Aqui, duas bolachinhas e um café puro.


Rimos, porque rir era mais fácil do que admitir que, em certos dias, a gente mede o carinho do mundo em coisas pequenas: uma fruta descascada, um copinho de suco, uma atenção.


— É por isso que as pessoas preferem aquele laboratório, ela concluiu.

— É o diferencial, eu disse. Tratar o cliente com cuidado.

— Você sabia que o Sabin é administrado por mulheres?

— Já li sobre elas, respondi. Fundadoras, competentes, cada uma com sua especialização… Dá orgulho ver.

Quando percebemos, já tínhamos passado por duas lanchonetes abrindo. Eram pouco mais de oito. Descemos para o piso inferior do mini-shopping: mais movimento, gente indo e vindo com pressa de quem ainda vai aprender o que o dia quer. Encontramos uma lanchonete popular. Um queijo quente e um suco de laranja fizeram o trabalho silencioso de devolver o corpo à vida.

— Agora sim podemos andar, minha filha disse, como quem autoriza a própria manhã.


Passeamos pelas vitrines. O shopping acordava devagar, abrindo as pálpebras. Lojinhas de roupa, bijuterias, uma loja de departamento… e uma sapataria que não era sapataria: na fachada, “Sapataria”, mas por dentro, conserto de sapatos. Pensei, sem muita lógica, se venderiam os pares esquecidos pelos clientes. Não perguntei. Entramos mesmo assim, e descobrimos que lá funcionava também uma lavanderia.


Perguntamos sobre preços para lavar edredons. A moça, gentil, nos explicou, e ainda acrescentou, como quem oferece um mundo:

— Aqui a gente faz costura também.

E nos entregou um cartão, sorrindo.


Um pouco adiante, uma loja de produtos naturais. Castanhas, chia, uvas-passas, ameixas. No final do corredor, um supermercado. Compramos verduras frescas, orgânicas. Coisas simples, mas com esse efeito curioso de prometerem futuro: vai dar certo, vocês vão se ajeitar.


Chuvas de janeiro e pamonhas

Saímos do mini-shopping e a brisa da ida já tinha virado chuvisco. Abrimos a sombrinha e caminhamos sem pressa para casa. Goiânia, porém, tem um talento particular: sempre existe uma pamonharia por perto, como se o bairro inteiro quisesse nos alimentar.

E foi assim que reforçamos o café da manhã com uma pamonha vegana. Delícia. Chuva fina no caminho, pamonha quente nas mãos - e alguma coisa em mim, que antes era só peso, ficou mais leve.


A coragem de começar

Agora, um ano depois, a lembrança desse passeio e dessa pamonha me encontra de novo e me puxa pela mão para fora da cama. O dia não precisa nascer correndo. Janeiro sabe disso. E eu também: recomeçar, às vezes, é só voltar ao corpo, abrir a janela e deixar o mundo entrar, pingando.


Sim, recomeçar é voltar ao corpo, abrir a janela e deixar o mundo entrar.


Porque há dias em que viver é isso, um gesto simples que reacende o mundo. E você: qual é a sua “pamonha de janeiro”, aquela coisa miúda que te põe de pé?



#VidaSimples #Caminhar #Pamonha #CulinariaGoiana


——


Leia também O ano em que escolhemos nadar



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