Progresso ou destruição silenciosa?
A cidade dorme, a ambição descansa (1 de 2)
A cidade dorme, mas a ganância não
Hoje, às cinco da manhã, a cidade parecia em paz.
Fotografei os prédios ao redor: janelas apagadas, nenhum sinal de movimento. Um silêncio quase confortável, como se tudo estivesse, finalmente, em repouso. Mas não estava.
Essa cena me levou de volta a outra madrugada, em Brasília. Ruas vazias, iluminadas artificialmente, dando a impressão de vida que não existia naquele momento. E, como um eco distante, lembrei de um verso antigo:
“A cidade dorme / a ambição descansa.”
Queria acreditar nisso. Mas não consigo mais. A ambição não descansa, ela apenas se torna invisível.
Enquanto dormimos, florestas continuam sendo derrubadas. Rios seguem recebendo o que não deveriam. O mar engole o excesso que produzimos sem medir as consequências. Nada disso pausa porque a cidade apagou as luzes. Há decisões em andamento, contratos sendo cumpridos, processos que não param. Chamamos isso de progresso. Mas, progresso para quem?
Existe uma lógica silenciosa que transforma tudo em recurso. Que mede valor em números, nunca em equilíbrio. Que trata a Terra como algo disponível, nunca como algo finito.
E o mais inquietante talvez seja que não parece violência, parece normal.
A cidade dorme, sim. Mas o planeta continua sendo consumido. Sem descanso, sem intervalo, sem noite.
Talvez o verdadeiro despertar não esteja no nascer do sol, mas na consciência do que nunca parou de acontecer.
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“A cidade dorme”, escrito em julho de 2008:
https://www.luisanogueiraautora.com.br/2008/07/viaversos-embalando-o-bero.html?m=1
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