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Figurinhas, Shakespeare e silêncios

Shakespeare e silêncios que habitam o cotidiano. Uma crônica sobre literatura, afeto e os pequenos gestos que nos sustentam.


Fotografia: Luísa Nogueira
Entre figurinhas, Shakespeare e silêncios.
Quando até um recorte digital vira afeto.

Dias nublados por dentro também pedem histórias. Hoje compartilho as minhas:

Figurinhas, Shakespeare e silêncios*

Hoje estou frágil. Não quero pensar muito.

Ontem me distraí com fotos (quem me conhece sabe que amo fotografia). Aprendi fazer figurinhas através de fotos. Essas que usamos nas redes sociais. Fiz com imagens da minha filha, da minha mãe, dos meus irmãos. Foi mais que passatempo: foi gesto de afeto. Escolher os rostos, recortar sorrisos, enquadrar memórias. É curioso como até um recurso digital pode nos devolver um pouco de presença, mesmo em dias nublados por dentro.

Hoje, apesar da leveza de ontem, a alma ainda anda devagar. Quero retomar a leitura de Otelo. Estou no início da Cena II. Shakespeare é denso, mas seus personagens são tão humanos quanto nós. O ciúme de Otelo não é apenas sobre amor, é sobre posse, orgulho, honra ferida. É também sobre o quanto nos deixamos envenenar por palavras alheias. Já fui um pouco Desdêmona, confesso. Acreditei demais. Falei baixo demais. E também já estive perto de Iago: calada quando deveria falar.

Ao lado de Otelo, estou com vontade de continuar Desonra, de Coetzee. Só li o primeiro capítulo, mas já me provocou desconforto. Um professor, já mais velho, se envolve com uma aluna adolescente e é desligado da universidade. O que o move? Desejo? Fragilidade? Arrogância intelectual?

Há algo nesses dois livros que parece dialogar. Ambos falam de homens em decadência  - de poder, de controle, de identidade. Ambos tratam do que se faz com o outro quando se sente ameaçado. Um, num cenário elisabetano, entre espadas e títulos. O outro, na África do Sul pós-apartheid, em meio a tensões sociais e ruínas silenciosas.

E eu aqui. No meu tempo. No meu corpo. Com figurinhas e tragédias. Tão distante de Otelo quanto de Coetzee e, ao mesmo tempo, tocada por ambos. Porque tudo isso me afeta: a violência velada, o machismo que resiste sob camadas cultas, o silêncio imposto às mulheres que sentem demais.

Esses livros fazem parte de minha última lista de leitura e de releitura. Mas tenho lido mais com a alma do que com os olhos. Eles não nos ensinam apenas a escrever; nos lembram o porquê.

Talvez seja por isso que continuo, mesmo nos dias em que tudo parece pesado.

Hoje, não quero pensar muito. Mas sigo lendo. Sigo criando. 

Amanhã, talvez escreva mais. Ou menos. Mas escrever, de algum jeito, é o que me mantém. Escrevo como quem respira.

——

*Texto de 2024. Escrito em meu diário. 



Fotografia: Luísa Nogueira
Da leveza das figurinhas ao peso de Otelo:
reflexões de uma leitora que sente demais

Fotografia: Luísa Nogueira
Shakespeare, Coetzee e um punhado de
memórias: o que nos prende à leitura
quando a alma anda devagar?


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