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Um desencontro

Uma viagem curta, um desencontro na rodoviária, e o medo de perder quem amamos. 


Pingos indicativos de chuva, com folhas verdes espalhadas e uma legenda com o título do post: Um desencontro

Um desencontro


Foi nos anos 90.

Minha mãe viajava quase sempre acompanhada, mas dessa vez viajaria só, sem a companhia da netinha de Goiânia, que já tinha vindo outras vezes passar parte de dezembro conosco. Tínhamos combinado com minha irmã: ela a embarcaria no ônibus, e nós a pegaríamos. Era uma viagem curtinha, apenas duas horas na estrada.

De Goiânia a Brasília há duas opções: via Taguatinga ou direto, sem paradas. Há saídas de hora em hora. Claro, o direto é mais rápido, meia hora a menos. Ela sairia às quatro da tarde, e nós a pegaríamos às seis. Tudo combinado, tudo certinho.

Cinco e meia, nós já estávamos na plataforma de chegada dos ônibus vindos de Goiânia. Minha filha segurava uma rosa nas mãos, esperando a vozinha que passaria dezembro conosco. Eu já de férias, minha filha também. Vozinha com oitenta e dois anos, viajando no horário escolhido por ela:

— É mais fresquinho, argumentou, e nos convenceu.

Eu insistira: pela manhã é mais fácil, menos cheio, mais seguro. Mas, tudo pelo seu bem-estar. Se ela preferia esse horário, a viagem seria tranquila. Com certeza.

Cinco e quarenta e cinco. Ônibus de Goiânia chegando.

Plataforma e ônibus cheios

— Ainda bem que viemos antes, disse minha filha.
— É o via Taguatinga de três e meia, atrasou, alguém comentou.
— Ah, será que o direto das quatro vai atrasar também?
— Esse mês é assim, atrasam sempre, disse uma jovem.
— Viajei semana passada e não teve atraso, respondeu outro.

Tomara que dessa vez não atrase, pensei, já inquieta.

Seis horas.

— Olha, está chegando. É o direto.
— Calma, deixa o ônibus encostar.

A plataforma estava cheia. Abraços ainda na porta do ônibus, gente tentando subir antes de deixar descer.

— Vamos deixar as pessoas descerem,  pediu o motorista.

— Que saudade! A Vandinha está no carro, não tinha vaga no estacionamento, dizia uma mulher, mal sua irmã tocou os pés no chão.

Nós esperávamos. Olhávamos cada rosto.

Poltrona 10

— É a poltrona 10,  avisei minha filha, que já estava praticamente dentro do ônibus.

Subi também. Vi minha filha no final do corredor.

— Onde está sua avó? Será que desceu e não vimos?
— Só pode, mamãe. Aqui dentro ela não está.

Descemos correndo, perguntando às pessoas:

— Alguém viu uma senhora de idade, baixinha? Poltrona 10?

Ninguém viu. O motorista não se lembrava.

— Na poltrona dez tinha um casal,  disse ele, conferindo as fichas.
— Não tem nenhuma senhora chamada Lídia nesse ônibus.

Ligamos para a casa da minha irmã.

— Ela embarcou sim, tia. Vou chamar minha mãe.
— Ela foi no via Taguatinga. Não tinha mais passagem no direto.

Respirei. Graças a Deus, pensei. Foi só isso.

Seis e meia.

— Não devia já ter chegado?

Pai do céu, faça esse ônibus chegar logo.


Atrasou dez minutos. Quando apareceu, eu já tinha chamado Deus tantas vezes que Ele devia estar cansado de minhas súplicas. 

Nova maratona: porta do ônibus, corredor, perguntas. Nada.

— Maninha, você embarcou mesmo minha mãe?
— Claro que sim. Ela foi no ônibus das quatro.
— Ela não chegou…

Choro dos dois lados da linha. Eu e minha irmã sem saber o que fazer.
Minha filha interrogava os passageiros.

— Mãe, um moço disse que viu uma senhora desembarcar em Taguatinga.

Chovia.

Meu ex-marido chegou correndo, quase bateu o carro. Pegamos a estrada. A chuva aumentava, não dava para correr. O tempo parecia parado.

Se ela desceu em Taguatinga, onde estará agora?
Meu Deus, proteja minha mãe. Coloque pessoas boas no caminho dela.

— Será que erramos o caminho?
— Calma. Não dá para correr. A chuva está forte.

A chuva parecia brincar conosco. Quanto mais desespero, mais água caía.

Ela havia mesmo descido em Taguatinga, pensando ter chegado em Brasília. Uma jovem estava com ela.

Não lembro das palavras que dissemos quando a vimos. Lembro apenas do alívio e desse cansaço profundo que vem depois do medo.

Anos depois, sempre que passo por aquela estrada em dia de chuva, penso no quanto a vida pode se perder por um detalhe. E no quanto, às vezes, ela se encontra por uma mão desconhecida.

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#Afeto #Família #Poltrona10 #Cuidado #Chuva


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Leia também Um caderno, uma casa, uma fênix

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