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| O que o rio me ensinou sobre o mundo |
Um mergulho nas águas cristalinas da infância em Goiás e a busca por clareza em um mundo cada vez mais turvo. Uma crônica sobre memória, tempo e resiliência.
Um mergulho nas águas da infância
Relembro o rio de águas claras da minha infância em Goiás
Não havia "eu" e "natureza". Havia apenas o movimento. Eu via as pedras no leito, cada uma com seu desenho único, como se fossem joias que o rio polia apenas para os meus olhos. Os peixinhos, em seus bailados rápidos e prateados, não me temiam. Éramos todos habitantes daquela mesma clareza. Ali, a infância aprendia com a geografia. O mundo terminava onde a água encontrava a terra, e isso era suficiente. Não havia o peso das redes sociais, a urgência das notificações ou o eco das notícias que hoje, como ventanias, balançam as nossas certezas.
Entre a infância e o presente
Hoje, diante do notebook ou da telinha do celular, com o olhar já calejado pelo que vi o mundo se tornar, entendo que aquela transparência era um privilégio que eu nem imaginava existir, muito menos sabia definir. O mundo de hoje é mais denso, mais opaco. As águas que correm agora trazem consigo os detritos das nossas escolhas, a poluição das nossas pressas e a névoa das dúvidas que acumulamos ao longo das décadas. Sei, com a lucidez de quem já viu o golpe no Brasil de 2016, a pandemia e o abismo de um degrau que ficou na memória de minha filha,* que não posso voltar ao rio. Aquele leito mudou, e eu também.
Mas ser saudosista não é querer habitar o passado. É carregar a clareza dele como uma lanterna. Saber que a água já foi cristalina me dá a medida do que perdemos, mas também me dá a régua para o que ainda podemos proteger. Meus pés, que antes sentiam a textura das pedras submersas, hoje pisam no chão firme da realidade. Um chão que exige mais do que brincadeiras, exige consciência.
A criança que nadava entre os peixes ainda vive aqui, mas ela aprendeu que a beleza não é apenas algo que se encontra, é algo que se defende. Olho para o meu caderno, para as letras que insistem em brotar, e percebo que escrever é a minha forma de filtrar a água turva do presente. Talvez a clareza não esteja mais no rio, mas na nossa capacidade de, mesmo em meio ao caos, ainda enxergar as pedras no fundo, a beleza que persiste, e a coragem de continuar mergulhando, ainda que a correnteza seja muito mais forte do que a que eu conheci em Goiás.
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Leia, neste blog, a crônica O último degrau, escrita em abril de 2022.
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