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Conto ‘Cobra Coral’: tragédia familiar no sertão em tempos de seca


A literatura, muitas vezes, nasce da memória.
 “Cobra-coral” é um conto breve, inspirado num 
episódio real, sobre os riscos escondidos no cotidiano.


Conto de Luísa Nogueira
“Cobra-coral" é uma história singela e dolorosa e o
amor que une uma família em tempos difíceis.

  
 
Cobra-coral

Conto sobre tragédia familiar e vida no sertão 


Era uma manhã de agosto. O sol amanheceu ardendo em labaredas, no azul tímido do céu, parecendo tingido com grossos rabiscos de corante de urucum. Galhos secos se retorciam no desespero de mais um dia sem chuva. Dona Zefa, acalorada ao pé do fogão, fervia água pro café da manhã e esquentava umas migalhas do pão de anteontem, atenta às vozes vindas da sala. O choramingar da pequena Lara, de sete meses, era acalentado por Dara, de seis anos. Seu João mexia no rádio. Sintonizava aqui e ali, mas a notícia sobre as queimadas de ontem vinha entrecortada por ruídos. Damião, de nove anos, arrumava seu caderno e um livro com meia capa - o que Dona Zefa conseguiu no monte de livros velhos deixados na escola por outras mães.

— João, vem com os minino. O café tá pronto. Dara, põe Lara na esteira e vem, fia.

Dara acomodou a irmã numa colcha antiga que, de tão lavada, já tinha muitos remendos. Remendos costurados por dona Antônia, irmã mais velha de dona Zefa. A colcha ficava por cima da esteira de palha de milho, perto da porta de entrada da casa. O lugar foi escolhido pra Lara receber um pouco de ar em meio ao calorão do dia.

Dona Zefa engoliu o café e correu até Lara, que continuava choramingando. Pegou a pequena nos braços, sentou-se numa cadeira e abriu a blusa pra dar ao bebê o leite que ainda saía de seu peito mirrado.

Pouco depois, Damião levou Dara até a escolinha ali perto e seguiu pra sua escola. Estava no terceiro ano. Um pouco atrasado, mas com notas melhores do que os filhos da Candinha, moradora nova da rua onde viviam.

Dona Zefa ajeitou Lara de novo. Sentiu algo debaixo da colcha, apalpou e tirou um brinquedo esquecido entre a esteira e o pano. Sempre ensinava Dara a olhar a esteira antes de deitar a irmã. “Coitada da minha filha, tão pequena e já cuidando da irmã”, pensou, indo pegar uns retalhos no quarto dos meninos. Separou, pegou a tesoura e, sentada no chão, recortou os tecidos, fazendo da cama uma mesa improvisada. Ia costurar um vestidinho pra Dara.

Pensou em ir pra sala, alinhavar o vestido enquanto vigiava Lara. Mas o cansaço da manhã, e as muitas preocupações de um mês difícil, esmagavam seu corpo já fragilizado. Sentia tonturas e uns tremores que vinham de vez em quando. “Tá tudo calmo, Lara dorme... já, já me levanto.”

Dormiu ali mesmo. Acordou assustada.

“Nunca cochilei de dia... Santo Deus!”

Levantou-se num pulo, correu até a filha como se pressentisse algo. Pegou Lara nos braços - a menina estava roxa, com dois furinhos acima dos lábios. Gritou. E não viu mais nada.

Damião chegou com Dara. Encontrou o pai agachado ao lado do corpo da mãe. E a mãe, com Lara ainda nos braços.

— Pai!?

A mãe também tinha os dois furos. Na perna direita.

A casa, que vivia dos cuidados, choros e risos de crianças, nunca mais seria a mesma.

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Notas: 1- História fictícia, baseada em um fato real. 
Conto a partir de uma lembrança de quando eu, criança, morava numa cidade entre dois grandes rios do norte de Goiás, hoje Tocantins.
2- Ilustração feita através do Canva - design.

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#narrativa sobre pobreza no Brasil
#lembranças da infância
#literatura brasileira contemporânea
#contos sobre a seca

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